quinta-feira, 10 de outubro de 2013

(1979)"Os Trombadinhas" - Pelé e o mais longo dia das crianças


Muitos cineastas por mais premiados e respeitados que sejam apresentam una mancha negra em sua filmografia. Antes de estragar as próprias franquias, George Lucas tinha "Howard, o super-herói" como momento mais baixo de sua carreira. Roman "Pedobear" Polanski dirigiu "Piratas" e mesmo o incomparável Francis Ford "Godfather" Coppola deu as mãos a Robin Williams e juntos cometeram a porquería chamada "Jack". O mesmo non poderia deixar de acontecer com uno dos melhores diretores brasilianos, Anselmo Duarte, vencedor da Palma de Ouro em Cannes com "O Pagador de Promessas", tomou desgosto pelo cinema e abandonou a cadeira de diretor depois de concluir este monte de merda chamado "Os Trombadinhas". Nem o Coutinho deve guardar tanta mágoa do Pelé quanto Anselmo guarda.


Justiça seja feita: a culpa toda non é de Anselmo. O argumento e os diálogos foram escritos por Carlos Heitor Cony, quello vecchio maluco que é colunista da CBN e da Folha de São Paulo baseado em una história escrita por Pelé, que como roteirista/ator/cantor/poeta é uno ótimo jogador de futebol, como ressaltei no post anterior. Simplesmente as pessoas non conseguem convencê-lo de que non é uno artista e demovê-lo da ideia de cantar ou atuar. Só o Romário consegue falar a verdade para ele.



O enredo é mais raso que una poça de aqua. Fred, ricaço de bom coração (Paulo Goulart) quer tirar as crianças da delinquencia juvenil (non se sabe bem a sua motivação, simplesmente o cara é uno filantropo e pronto) e para isso resolve pedir a ajuda de Pelé (lembra daquele papo de "vamos ajudar as criancinhas?"), que no filme é técnico da base do Santos. Na vida real, até onde eu lembre, Pelé nunca se meteu a ser técnico ou dirigente do time, o que fez muito bem, haja vista o que fizeram com o Zico no Flamengo.


Pelé, como se non tivesse mais o que fazer, non só aceita colaborar, como também resolve trabalhar em conjunto com a polícia a fim de desbaratar una quadrilha de trombadinhas e prender o responsável por ela. A todo momento, Pelé e Fred reforçam a tese de que há uno adulto comandando os delinquentes juvenis, como se isso non fosse a cosa mais óbvia do mundo. O chefe de polizia coloca Pelé para trabalhar como parceiro de uno policial casca grossa chamado Bira (Paulo Villaça, o "Bandido da Luz Vermelha", único neste filme que mantém a dignidade) e os dois ficam de tocaia esperando o momento em que os trombadinhas vão agir.


Além da ideia de Pelé trabalhar como policial à paisana ser absurda (qualquer uno que o vê na rua sabe de quem se trata), ainda há o fato de que Pelé non pede licença do Santos para poder trabalhar com a Polizia. Ele se aventura como tira ao mesmo tempo em que dá treino no Peixe. Daí a gente entende porque os "Meninos da Vila" non vingaram.


Una dessas "tocaias" acaba dando errado e Bira é baleado por Arlete (non sei o nome da atriz e nem aparece nos créditos finais. Suponho que seja Ana Maria Nascimento e Silva), namorada do Manteiga (?), chefe dos trombadinhas, e amante do Gibi (????), chefe do Manteiga em uno esquema maior que envolve tráfico de drogas (Gibi aparentemente é mais rico e poderoso, por isso que Arlete se interessa por ele). Ela foge com una bolsa roubada por uno trombadinha, que impressiona Pelé pela sua velocidade e gingado.

"Gibi! Isso lá é nome de gente? GIBI SÓ SERVE PARA LIMPARA BUNDA DE GENTE QUE NEM VOCÊ!"
O trabalho de Pelé como "infiltrado" dá tão errado, que logo aparece uno repórter (Nilton Micheli) na casa do Fred querendo investigar a história. O tal repórter só serve como alívio cômico e par romântico da filha do ricaço, Ana Maria (Kátia D'Ângelo), que estuda sociologia. Aliás os discursos "sociológicos" desse filme são piores do que os de calouro da FFLCH. Até a Luciana Gimenez consegue discutir ciências sociais com mais profundidade do que esse povo. Lembrando que foi uno colunista da CBN que escreveu os diálogos...

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Durante o tempo em que Bira fica em observação no hospital somos brindados com uno dos momentos mais brilhantes e também bizarros deste filme. Depois de roubar uno Opala (graças ao PAZZO do motorista que deixa o carro aberto com a chave no contato para reclamar com uno trombadinha que lhe roubou o Rolex) bambino é perseguido na Via Anchieta e acaba capotando o carro e morrendo na chamada "Operação Fórmula 1".


 Após a recuperação do Villaça, ele e Pelé retomam a busca pelo bambino que encantou Pelé e pela loira que o baleou. Eis que ocorre o seguinte diálogo: Bira - "Como é que eu vou encontar minha loira safada?" Pelé - "Bota no jornal: Procura-se loira que deu um tiro no polícia! Hahahaha!!" Bira - "Mas antes eu vou encanar todos esses trombadinhas. Aí você encontra teu garoto bonzinho e eu a minha loira safada, combinado?". Desta vez, valeu a pena deixar o Cony escrever o diálogo.


Otro momento bizarro é durante uno desfile de moda em que uno dos amigos do Paulo Goulart tenta convencer o personagem de Roberto Maya (aquele que apresentava "Documento Especial" na finada TV Manchete), que está lançando una grife de "moda punk"(?????) a ser sócio com ele em uno esquema de tráfico de drogas (ou seja, ele é que é o "Padrino", o chefão-mor). O desfile é embalado pela banda Made In Brazil cantando "Jack, o Estripador"(!!!!!)


Na lista de prioridades, Arlete vem em primeiro lugar. Mesmo usando una peruca preta ela é reconhecida e presa e é a cena da sua prisão que ficou famosa no You Tube e tirou essa porquería de filme do ostracismo, onde ele deveria ter permanecido:


Depois, Bira e Pelé resolvem fazer uno tour pelos campos de várzea da cidade até que finalmente acham o tal garoto bom de bola, de nome Tião e somos presenteados com mais uno momento singular com Pelé correndo atrás de uno pivete NO MEIO DA FAVELA!!! CAZZO! PELÉ NA FAVELA! DIO SANTO!


Pelé mesmo com 39 anni nas costas consegue parar Tião, que deve ter menos de 18. Explica para ele que sabe como se sente, que quando era pequeno era obrigado por uno ragazzo mais vecchio a roubar amendoim, senão ficava com fama de maricas, que vida do crime non leva a nada e que iria arrumar uno lugar para ele no Santos.


Nesse interim, o jornalista e a filha de Fred são pegos bisbilhotando e são feitos refém por Gibi e seu capanga, mas são salvos por Pelé e seus incríveis golpes de kung fu soccer(!!!!!)


Contudo, em uno daqueles vacilos típicos de filmes assim, Fred mostra para seus amigos ricos (incluindo o bandidão mor) uno retrato falado do ex-trombadinha. Pocco tempo depois ele é encontrado morto e somos agraciados com mais uno "brilhante" diálogo: Pelé  - "Tô com medo, Bira"; Bira - "Medo? Medo de quê?"; Pelé - "Medo de despertar em mim o ódio, despertar em mim a violência, medo de fazer com esse cara o mesmo que ele fez com o Tião". Durante o enterro de Tião, Pelé se comove com uno mural de fotografias feito pelo bambino com vários momentos de sua carreira.


Você assiste e pensa "Agora o Pelé vai virar um badass e vai encher todo mundo de chumbo". Non, non chega a acontecer isso, mas Pelé usa novamente suas habilidades na luta para arrebentar os capangas de Manteiga e consegue que ele entregue o amicco do Fred que chefiava todo o esquema, o Dr. Renato (non é aquele!).



O filme encerra com Bira, Fred e o chefe da polizía sendo alvos de uno nuovo grupo de trombadinhas, em una conclusão bastante irônica. A propósito, sabe o que aconteceu com os trombadinhas antigos? O Pelé levou para o Santos. POR ISSO QUE O TIME DA DÉCADA DE 80 ERA RUIM! SÓ TINHA DELIQUENTE JUVENIL LÁ!

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A única serventia que teve essa porquería foi servir de inspiração para filmes do You Tube, como por exemplo a série "Ninja do Gueto", que reúne as cenas de luta de Pelé no cinema.



Outro vídeo fantástico é baseado no único trecho inteligente do filme (que alterna cenas do Pelé instruindo os juvenis do Santos e Manteiga instruindo os pivetes infratores) é o da campanha para que Pelé treinasse o Santos, lançado na época em que Muricy Ramalho era o treinador da equipe: "Pelé, o novo técnico do Santos"

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Otro diálogo: Juvenil - "Só tem um problema, meu nome não é Zeca, é Zico!"; Pelé - "OK, Zico, mas vai demorar um pouco". ENTENDERAM? ZICO? VAI DEMORAR UM POUCO? HÃ?



Mesmo com esses diálogos, non tiro a razão de Anselmo Duarte. Também ficaria muito puto se eu fosse lembrado por essa bosta.

Total de gols do Pelé: 1285 (ele faz uno em pensamento enquanto explica para Bira a importância do pênalti)

Total de vezes em que a palavra "jogada" é dita no filme: 5

O filme inteiro está disponível no You Tube:


Cotação:

4,5/10 cabeças de cavalo: Melhor ser roubado pelos trombadinhas da Xavier de Toledo 

Fontes:

http://www.bcc.org.br/fotos/galeria/025045
http://www.lancenet.com.br/flamengo/Ovacionado-Zico-afirma-achei-durar_0_875312576.html

Veja também:

(1986)"Os Trapalhões e o Rei do Futebol" - A didimocozação de Pelé

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